Verborrágicos! em Mp3. Saiba mais sobre o Prêmio Monteiro Lobato
Perdição
Cólera. Foi assim que tudo começou. Num incerto dia, tive uma raiva intensa do tamanho apego que sentia pela minha imagem. Então, com a cabeça fervilhando, perdi-me dentro de mim e abri mão de amar a minha pessoa. Com essa atitude, enveredei por um caminho sem volta: amei o Próximo, uma das piores, mas necessárias aventuras que decidi viver.
Quando me vi amando, experimentei um pouco do meu veneno, aquela droga do amor que sempre me hipnotizava e me conduzia. Minha intenção era nobre, confesso. Mas, ao me dispor a amar o outro, eu não previ que não conseguiria evitar o sentimento por mim nutrido em outros tempos, já que era a minha única referência. A memória é inexorável...
Assim, sem perceber, instintivamente forjei um amor que trilhava um caminho de volta para mim. De início, pensei que o meu Próximo não estava tão próximo assim. Egoísta que fui, não vi que ele morava há muito tempo em meu calcanhar e, aos poucos, fui tragado pela sua existência. Não sei até que ponto, a essa altura dos fatos, minha inquietação serve de alguma coisa.
Dia após dia, ele se apoderava mais e mais de um espaço que nem era dele, galgando o meu corpo e se aproximando de minha outra extremidade: a minha cabeça. Era tudo tão visível, no entanto meu orgulho não me deixava enxergar que ele estava cansado de ser horizontal, embora soubesse que, com a verticalidade, teria de ser mais resoluto. Subir é sempre sedutor, em face do mundo que se oferece ao olhar para ser desnudado.
Antes de chegar ao topo de mim, o Próximo me perguntou se o mundo era uma caixa. Estranhei a pergunta, porém cai nos braços do riso. As indagações que são feitas por outros sempre parecem estranhas a nós. Ali, não estava mais o Próximo e sim a curiosidade que se movia à espera de minhas respostas lógicas.
Como tive mania de autocontemplação, maravilhado, acompanhei o Próximo e, paulatinamente, não percebi que abria mão de minhas terras. Tendo chegado ao topo, ele habitou os meus olhos e começou a contemplar o mundo a sua volta de outra maneira. Via as terras mais distantes e as possibilidades de explorá-las, em seguida, vislumbrando o prazer que sentiria ao se apoderar delas. Não entendo o porquê de nunca ter reagido. Talvez, eu revivesse um sentimento familiar...
Cada vez mais hipnotizado pelos atos sublimes praticados por esse novo ser, eu não me movia diante da sua tamanha sutileza com a qual conseguia se instalar nos meus aposentos. Chegava a ser apavorante, às vezes. Mesmo assim, engoli o medo e não me abalei. O outro era de um encanto trágico.
Então, chegou o dia em que eu e ele dividimos um só corpo, um só olhar pacificamente. Foi mágico, pois eu nunca havia experimentado algo semelhante. Neste só corpo, andávamos de mãos dadas, explorando, conhecendo o labirinto que era esse novo espaço habitado por dois a um só tempo. O outro me percorria, guiado por mim, encontrando outros narcisos que eu nem sabia que existiam em meu vasto labirinto.
Aquele ser era um poço de curiosidade, pois que procurava conhecer a si mesmo, mas como? O tal “si mesmo” agora não eram dois? Cai na tentação de lançar-lhe essa indagação. Tamanha perplexidade o abateu de tal maneira que, a partir disso, começou a refletir sobre sua condição e sua identidade. Às vezes, eu tinha a mera impressão de que ele se sentia dominado, oprimido. Afinal, o que era o outro além de habitante das minhas terras?
Foi então que, não suportando o peso do amor à minha própria imagem, tomei uma decisão que mudaria as nossas vidas para sempre. Deixei que ele experimentasse tomar posse do lugar, logo apregoando novas diretrizes. Naquele momento, nunca mais reconheci o meu rosto.
Acordo às 05h30min. Num átimo, ludibrio – ou finjo ludibriar – o ribombar de obrigações diárias que desponta em minha mente, rolando de um lado a outro da cama a fim de tirar uma soneca. Entrementes, a sofreguidão logo me apoquenta, dizendo em alto e bom som: “Vá trabalhar, ser indolente!” Superego de assalariado é rigoroso mesmo. Depois vem a hora da ablução. Confesso que, às vezes, na pressa de chegar cedo ao emprego, esqueço esse pormenorzinho. Em muitas ocasiões tal esquecimento também se estende ao ato de escovar os dentes; para ser sincero, sempre desconfiei da eficácia do flúor.
O desjejum é posto de lado. Mal dá para engolir um copo com leite ou iogurte. Horas mais tarde, ao exigir novas pilhas o bucho grunhe feito um suíno – e isso durante o expediente. Chego ao trabalho às 6h45min, graças à carona amiga de uma tia, companheira de profissão. Jogo conversa fora com os poucos professores que ali se encontram – “madrugar” não é o forte dessa categoria socioprofissional. Às 7h15min, quando todos já estão presentes, o toque anuncia que devemos nos dirigir às salas de aula. É hora da diversão!
Lidar com os rebentos das elites natalenses é uma missão hercúlea. Voluntariosos, alguns deles exigem mundos e fundos do professorado. Afinal, os seus papais pagam o salário dos mestres, meros paus-mandados. O desdém com o qual as empregadas domésticas são comumente tratadas ultrapassa a esfera do lar; o mandonismo dos antigos senhores de engenho deixa rijas reminiscências na conduta das classes dominantes locais.
O retorno a casa dá-se por volta das 13h00min. O almoço é uma refeição digna: feijão, arroz, salada e, conforme a tradição interiorana, “mistura”, isto é, carne, peixe ou frango. Comida boa e saudável. Nada de fast-food. Aboli essa mazela da minha dieta vespertina. Já agüentamos muitos enlatados estadunidenses para o meu gosto. À tarde dedico-me a leituras suplementares, elaboração de aulas e atividades didático-pedagógicas, correção de exercícios, enfim, o labor não termina quando saímos da escola. Infelizmente, o tempo dedicado à esposa e ao filho infante sofre um duro golpe. Ossos do ofício?
A ceia resume-se a um Nissin Miojo, troço ruim, porém de rápido preparo. 18h35min. O momento de preocupar-se com o segundo emprego. O instinto de sobrevivência fala mais alto. Minha esposa vai me deixar no colégio – as lides da profissão causam-me uma aversão mórbida ao volante. A platéia é outra: alunos do ensino público. Três horas diante de indivíduos que, incrivelmente, estão mais extenuados do que eu – muitos nem conseguem ficar acordados –, devido ao desgaste acumulado durante o dia. No Brasil, pobre trabalha dois turnos e, para conseguir, aos trancos e barrancos, concluir o Ensino Médio, estuda numa escola pública, à noite. Enquanto isso, os políticos brasileiros cevam-se, regozijadores, a expensas do patrimônio público, quase sem trabalhar. Que país é este?!
22h10min. Vou-me destroçado rumo ao home sweet home, no ônibus da empresa Cidade das Dunas, linha 33, tão abarrotado de gente que me dá prenúncios de asfixia. Um quarto de hora depois, chegada ao destino. Um beijo no filho e outro na esposa, ambos já nos braços de Morfeu. Todavia, o sono demora a emergir. A afluência de estresse e o excessivo consumo de café,marca indelével da labutação diária, fomentam, agora, a odiosa taquicardia, problema que acomete boa parte dos educadores em nosso país. Só perto da meia-noite as trêmulas pálpebras prostram-se ante a necessidade imperiosa de acordar cedo no dia seguinte. E a semana está apenas no seu exórdio...